Excerpt for Rosas de Cabeceira by , available in its entirety at Smashwords









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VERÃO DE 2004



Toda noite Cindy entrava no quarto da filha para ler e contar histórias que a menina sabia de cor e que não se importava em ouvi-las repetidas vezes. Desde o diagnóstico de Laurie, o ritual era sempre o mesmo. Cindy batia na porta, colocava uma rosa branca ou vermelha na cabeceira da cama da menininha, sentava na cadeira e lia um capítulo aleatório de O Sol é para Todos. Depois se despedia com um beijo de boa noite e deixava o quarto.

Laurie sorria feliz, e com sua vozinha suave dizia: eu te amo, mamãe. Era sempre a mesma rotina. Naquela noite de verão não foi diferente, mas algo aconteceu.

— “Seguimos o seu dedo e, de súbito, sentimos um baque nos nossos corações...”.

— Mamãe. – Laurie a interrompeu depois de uma tosse seca. A menina sentou sobre os cobertores e ajustou as costas contra o travesseiro. – Quero ir à praia amanhã. Para ver o mar. – um sorrisinho leve surgiu nos seus lábios suaves. – Depois quero andar de bicicleta. Certo?

Cindy hesitou. Não deveria, mas não conseguiu evitar. Ela sabia que a saúde da filha não era forte o suficiente para suportar todas as coisas que ela queria fazer. Mas, por fim, ela disse:

— É claro, filha. – afirmou, tentando colocar um pequeno sorriso no rosto. Ela arrumou o cabelo da menina atrás da orelha e tocou em sua bochecha de forma carinhosa. O cabelo estava tão pouco e fino. Laurie estava cada vez mais magra e fraca. Por isso Cindy não sabia se deveria encorajar a menina a sair. – Boa noite, querida.

Cindy deu um beijo na testa quente da menina e ao chegar à porta Laurie disse:

— Te amo, mamãe. – a menina apertou os olhos por um instante e encarou Cindy, que estava próximo a porta, segurando a maçaneta. – Também sei que você me ama. Vejo nos seus olhos. Sei que não tem costume de dizer isso por causa de sua mãe... mas eu sei que você me ama!

Algo se quebrou em Cindy. Uma sensação de impotência e tristeza a tomou por completo. Ela desviou o olhar de Laurie, assentiu para as palavras da filha, e, envergonhada, segurou as lágrimas ao passo que fechava a porta do quarto. Porém, antes de sair ela viu um sorriso fino nos lábios da menina. E então a escuridão da noite inundou todos os cômodos da casa.



Alguns dias depois Cindy cedeu ao pedido da menina e toda a família foi à praia. Laurie sentou à beira mar, com o olhar fito e contemplativo nas ondas que se quebravam, os braços cobertos por um casaco fino. Seus pais a abraçavam com carinho; era essa a sensação que ela mais gostava de sentir. Conforto. Tudo a sua volta a animava. Mas mesmo sentindo o vento em seu rosto, o barulho das ondas em seus ouvidos e a visão do horizonte, nada disso se comparava ao aconchego que aqueles braços de amor, desvelo e afagos proporcionavam. Nos últimos dias, quando sentia muita dor, era nisso que se satisfazia.

Laurie sentiu-se segura e tranquila naquela manhã. Todo dia ela precisava enfrentar injeções, uma rotina cansativa de remédios em horários pré-estabelecidos, e o único momento calmo do seu dia era à noite, quando sua mãe contava histórias. Mas pelo menos uma vez pela manhã ela estava se sentindo bem.

— Queria voar como os pássaros. – ela murmurou entre um suspiro, a voz um eco fino e suave. – Ou poder correr sem sentir dor. Perder o fôlego é horrível.

— Oh, querida! Você vai conseguir tudo isso quando ficar boa.

Laurie fez uma careta, descrente. Ela uniu os dedos sobre o colo e, com uma ideia repentina, virou-se para o pai e comentou:

— Papai, você faz um monte de máquinas. Eu já vi. – ela pausou e sorriu, lembrando-se do alimentador de peixe automático que ele havia feito há alguns anos. O pai era bom nessas coisas e fazia muitas engenhocas que deixava a menina deslumbrada. – Você ganhou muito dinheiro, não foi? – ela arqueou as sobrancelhas e esboçou um sorriso travesso. – Pode até fazer um avião para a gente, não pode?

Ela ergueu os braços e pulou em cima dele para abraçá-lo, animada com a ideia. A solução para seu desejo de voar. Laurie acreditava que precisava de um escape, uma ideia boa e eficiente que fosse rápida para ela finalmente voar como os pássaros. A menina acreditava que não poderia esperar. Então ela o apertou com toda a força que tinha, acreditando que se desse um abraço bem dado, seu pai se veria numa situação onde não poderia escapar. Ele teria que conceder seu pedido.

— Um dia tentarei fazer um pra você, minha filha. – ele deslizou os dedos pelo cabelo fino dela e suspirou de olhos fechados, assimilando a calmaria da praia e do dia. O pai estava acostumado a ouvi-la pedir coisas diferentes e às vezes sem lógica. A imaginação dela era muito deslumbrada e excitada com os pormenores e cada coisa bonita que podia encontrar no mundo.

Toda vez que o pai encarava a filha, ele se lembrava da canção What a Wonderful World de Louis Armstrong. Mesmo na situação complicada na qual estava, Laurie conseguia ver beleza onde muita gente não veria. Parecia uma característica inerente a ela.

— Precisa ser logo, papai. Quero um avião legal como um pássaro. Com as asas e tudo o mais – ela disse solenemente, os olhos extasiados com o céu azul, os lábios sorrindo com as pipas cortando as nuvens. – Não tenho muito tempo. Esqueceu? Precisa se apressar. – ela alertou e bateu as mãos nas coxas para mostrar o quão rápido ele devia ser para atender o seu pedido.

Cindy tentou não se afetar pelas palavras da filha. Baixou o olhar, entristecida por perceber que essa era a dura realidade da menina. Ela não entendia como Laurie conseguia se mostrar tão calma e resoluta com a situação. Como alguém poderia ficar tão calmo sabendo que uma sentença de morte batia a porta? No hospital as pessoas comentavam sobre a situação da menina. Alguns coleguinhas dela da oncologia diziam que ela iria morrer logo e de alguma forma isso não assustava Laurie como antes.

A lembrança de quando certa vez encontrou a filha com Wilbur na sala de brinquedos do hospital assaltou sua mente. A forma como Laurie conseguiu acalmar o amigo com palavras cruas fez Cindy enrijecer.

— Não chore, Wilbur. – ela tinha pedido carinhosamente. A menina segurava as mãos do menino e apertava os dedos finos dele, enquanto tentava dar seu máximo para confortá-lo. – Não tem porque você se preocupar com isso.

— Laurie... eu não gosto das injeções e já estou careca. Não quero morrer.

— Ei, não se preocupe. Você é bonito careca. – ela sorriu e passou a mãozinha fina na cabeça dele, depois se inclinou e beijou a careca com carinho. – E a gente vai morrer mesmo. Não tem porque ter medo agora.

— Não fale isso, Laurie! – ele pediu, a voz um tanto embargada, os olhos marejados e cheios de um medo denso que se alastrava com mais frequência em seus membros, fazendo-os tremer de tempos em tempos.

— Essa doença é só um contratempo. Não se preocupe com nada, cara! – ela sorriu, brincalhona. – A gente pode brincar enquanto isso, não quer?

Naquele dia Cindy estava do outro lado da sala, observando-os através do vidro que os separava. A maneira como Laurie parecia lidar com a doença, de certa forma, a transtornava, pois ela mesma se via perdida, sem saber realmente o que fazer.

— Gosto de você, Wilbur!

— Gosto de você, Laurie. – ele sorriu ao passo que montava as pecinhas do Lego. – Mas, por favor, Laurie, não fale mais em morte.

— Não falarei, prometo!

Cindy não acreditava muito na palavra negação, e sentia apenas que estava em choque. Ela na verdade preferia afastar Laurie das enfermeiras que tinham pensamentos ruins sobre o diagnóstico da menina. Era um instinto protetor que a tomava toda vez que precisavam ir ao hospital. Depois que Wilbur morreu e Laurie passou a brincar sozinha na brinquedoteca, o sentimento cresceu em seu coração.

Com esforço, Cindy afastou os pensamentos ruins para concentrar-se apenas em sua filha, no esposo e no dia que gastavam juntos. Ela se aproximou e os abraçou silenciosamente. Fechou os olhos e se permitiu suspirar de alívio ainda que uma tristeza infinita abraçasse seu peito.

— Está um lindo dia! – Laurie exclamou, feliz.

As rosas que Cindy depositava na cabeceira da cama de Laurie eram uma forma de dizer o quanto a amava e mostrar que todas as vezes que colhia as flores bonitas estava pensando nela. Sempre, depois de uma semana, as rosas brancas e vermelhas acumulavam na cabeceira da cama da menina, murchas e velhas. Cindy as coletava no sábado de manhã e jogava no lixo para que no início da semana tudo se iniciasse de novo. Um ciclo.

Cindy não tinha o hábito de dizer o quanto amava o marido e nem sua única filha, ou quanto apreciava a presença deles e amava tê-los em sua vida. Quando mais nova, sua mãe era ríspida e nunca falava coisas amáveis, e em muitas situações nem demonstrava se importar com nada que ela fizesse. À medida que foi crescendo, Cindy adquiriu um silêncio parecido, foi se acostumando a não confessar seus sentimentos puramente, apesar de se esforçar o bastante para demonstrá-los.

Naquela noite serena, ela decidiu que mostrar não era o suficiente. Ela precisava falar com todas as palavras. Apertou o talo da rosa em suas mãos e, decidida a mudar as coisas, entrou no quarto. Há dias Cindy vinha refletindo que precisava se libertar das heranças ruins de sua mãe, e o momento certo era o hoje.

Laurie estava deitada de lado como sempre, de modo a facilitar a respiração, de costas para a porta. Cindy se aproximou da cama, depositou a rosa na cabeceira, tocou levemente nos cabelos da menina, em seguida sentou na cadeira ao lado e iniciou a leitura do capítulo. Laurie a interrompeu com sua vozinha cansada:

— Leia dois capítulos hoje, mamãe, por favor!

— Sim, querida.

Cindy leu os capítulos em seu tom suave corriqueiro, em algumas partes ela representava algumas vozes para dar um tom diferente e dinâmico à leitura, em outros momentos ela apenas seguia o curso normal das palavras que a levavam e a submergiam no texto. Por um momento ela ficou imaginando como sua voz soaria se enfim dissesse para a menina o quanto a amava. Cindy lembrou-se que quando era criancinha esperava que sua mãe falasse de seu amor, e, quando ela por fim percebeu que isso jamais aconteceria, se conformou e esqueceu o quão importante era falar essas coisas, expressar o amor através das palavras.

Mesmo com seus atos de carinho, brandura e bondade, Cindy ainda encontrava dificuldade para falar. O esposo já não mais pedia para ouvir, pois havia se acostumado com o medo que a esposa tinha de falar de seus sentimentos. Era como se durante sua infância uma barreira houvesse sido criada e somente agora ela estivesse descobrindo a coragem para transpor isso.

Cindy levantou-se da cadeira, decidida a não ser igual à mãe. Ela descobriu que queria dizer para a filha o quanto a amava, para que ela tivesse a certeza absoluta de seu amor. Cindy não achava que as rosas eram suficientes agora. Ela sentia que falar em voz alta acrescentaria valor aos seus atos. Fechou o livro rapidamente, cheia de pensamentos, a garganta coçando para dizer três palavrinhas.

Ela não deu a devida importância para o silêncio estranho e irregular da menina, imersa em seus pensamentos, tudo que fez foi se inclinar para abraçá-la. Cindy a enredou com seus braços, feliz e aliviada por sentir a necessidade de fazê-lo, beijou-a bem perto da orelha e acariciou seu cabelo fino. As lágrimas escaparam de seus olhos, lavando seu rosto enquanto ela criava a coragem suficiente para falar. Cindy se afastou do corpo de Laurie, encarou-a e disse:

— Eu te amo, filha!

As palavras saíram tarde demais. Laurie estava morta. Antes mesmo de Cindy ter pronunciado a verdade que habitava em seu peito e que, naquele dia, parecia querer explodir. A menina jamais ouviu o que tanto buscava. E, apesar disso, havia um sorriso fino e feliz em seus lábios, que contrastava com o seu rosto pálido e doente, morto.

Algo se quebrou em Cindy, uma dor irremediável que a levou ao choro, e a gritos terríveis que rasgaram sua garganta em sons de angústia. Quando o esposo entrou no quarto da filha, assustado pelo barulho, ele percebeu-se observando Cindy na cama, balançando-se para frente para trás, desesperada e aterrorizada. Ele a abraçou com carinho, os braços trêmulos, o queixo sobre a cabeça dela ao passo que encarava com tristeza o corpo mole e inerte da filha. Ele não perguntou coisa alguma. Lágrimas dolentes e lentas escorreram pelo seu rosto, sujando seu cenho cansado de um dia longo de trabalho.

— Eu te amo, Laurie... – Cindy balbuciou entre as lágrimas, chorando alto ao passo que seu mantra desesperado se perdia na garganta como uma canção sufocante de dor e angústia.

Ela não conseguia soltar a menina e muito menos se desvencilhar do pensamento de que havia demorado demais. Por quê?, ela se perguntava. Minha garotinha, ela murmurava. Minha linda menina. Depois de muito tempo, quando Cindy finalmente se acalmou, ela se viu perdida num mundo de tristeza, imersa num vazio inominável. Seco. Pedregoso. Frio. Terrível.



No dia do sepultamento, Cindy coletou todas as rosas que havia posto na cabeceira da cama durante toda aquela semana, e as colocou sobre o caixão como um sinal de alerta, um gesto melancólico de amor, dor e perda. Por muito tempo Cindy usou as rosas e se privou das palavras para expressar seu amor, ela não queria mais fazer isso. Na cerimônia, ela contou toda a verdade: como havia falhado com a menina ao não dizer o que ela tanto precisava ouvir.

Cindy confessou que jamais havia dito eu te amo para a filha, pelo menos não a tempo. Ela contou que chegou tarde demais e que para sempre carregaria os flagelos do arrependimento.




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