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Excerpt for Dois em Um by , available in its entirety at Smashwords

Dois em Um

por Tadeu Rezende


Copyright 2018 Tadeu Rezende

Todos os Direitos Reservados

Smashwords Edition


Nota da Edição

Esse conto pode ser copiado, distribuído, repostado, impresso, etc. Desde que seja para fins não comerciais, oferecido de graça e que o texto apareça completo e sem alterações.


Créditos da Capa

Este conto foi produzido do começo ao fim sem um centavo gasto por seu autor quebrado – a arte que serviu de base para a capa foi cortesia do site Freepik. Tudo que eles pedem é que você credite as imagens usadas e é claro que eu não vou negar isso. As artes utilizadas foram “Pink Glowing Light Background” Created by Teinstud e “Abstract Background with Geometric Neon Lights” Created by Freepik. Thanks, guys.


Agradecimentos

Mãe, obrigado por todo o apoio. Pai, eu não saberia nem usar o Word sem você. Heltton, sempre meu primeiro leitor, obrigado por me aturar. E finalmente Angélica, obrigado pelo olhar clinico – sem você, ninguém ia saber que Luna tem olhos verdes.

Tabela de Conteúdo

Um

Dois

Três

Quatro

Cinco

Seis

Sete

Oito

Epilogo

Sobre a Obra

Fale Comigo

Sobre o Autor


1

Candidata: Nº214, Combatente/ Destino: LPTA 13/ Objetivo do Teste: Examinar mudanças fisiológicas e metafisicas nos momentos levando à, durante e após a morte./ Nota: Garanta a morte da candidata a qualquer custo.

Arquivo Oficial do Laboratório de Pesquisa em Transplantes de Almas. Site acessado no dia 29 de Abril, 2322.

Luna nunca foi muito apegada a objetos materiais. Espadas e roupas eram ferramentas; ouro e riquezas só tinha valor pelas experiências que podiam comprar. As vords, por outro lado… elas sim mereciam um pouco de apego.

Luna Spiritus, pirata por diversão, estava de pé no deque de seu barco, este que prosseguia suavemente por águas calmas, banhado pela luz pálida da lua e o brilho da essência eterna.

Ela era uma mulher de estatura pequena, corpo ágil. As cores dela naquela noite eram branco, cobre, verde, e preto. Branco para sua pele, pálida como leite. Cobre para seu longo cabelo castanho. Verde para seus olhos esmeralda, que brilhavam com excitação. E preto para seu uniforme furtivo, completo com uma jaqueta de couro.

Em uma mão Luna trazia seu arco de confiança. Na outra ela estava admirando a sua vord. A vord era um objeto mágico, uma varinha com dois palmos de comprimento; um cristal azul do tamanho de uma moeda estava incrustado em sua ponta. O cristal brilhava com uma luz azul suave, mas quem olhasse mais de perto veria a tempestade. Dentro do cristal, essência girava ao redor de si como um pequeno furacão feito de nevoa branca, girando e torcendo num movimento furiosos que Luna sempre achou um tanto hipnotizante. Graças a esse pequeno cristal, Luna conseguia controlar o vento.

O barco desacelerou até parar. A embarcação de Luna, o Lua Crescente, era relativamente pequena. O Lua tinha velas negras e nenhuma bandeira hasteada.

Duzentos metros adiante, outra embarcação flutuava na água — um navio três vezes maior que o Lua Crescente. A embarcação comercial estava ancorada para a noite. Em seu mastro voava a bandeira jade da Companhia Salvorina de Comércio. Este navio era o alvo da noite.

Luna estava na polpa do Lua Crescente. Uma mulher alta se aproximou dela, usando um capuz e uma mascara de coruja.

“Estamos prontos, capitã Águia,” ela disse.

Águia era Luna. Os apelidos não tinham sido ideia dela, mas a tripulação estava preocupada com anonimato, então Luna não se opôs. Entretanto, ela também não participava, se contentando com uma mascara simples que cobria a parte inferior de seu rosto.

Luna prendeu sua varinha no cinto e deu uma tapinha no ombro da Coruja. Hora de trabalhar. Ela virou-se para ver os outros membros da tripulação, que já tinham formado um semicírculo no deque. Eram sete ao todo, todos mascarados. Isso fazia nove tripulantes, contando Luna e Coruja.

“Muito bem, meus queridos animais,” Luna disse. Na noite quieta, até os sussurros dela pareciam gritos. “Mais uma vez é hora de tirar os olhos do chão e olhar pra frente. De dia vocês são carpinteiros, médicos, prostitutas, todas as pessoas de bem, passivas. Mas aqui!” Luna ergueu os braços. “Aqui vocês são a noite. Vocês são as flechas, eu sou o arco e eu nunca erro! Confiem na minha mira e lembrem: qual é a primeira regra?”

Sete vozes soaram em uníssono: “Sem mortes!”

“Isso mesmo,” Luna disse. Ela virou-se em direção ao navio inimigo. “Vamos animar essa noite.”

Luna aceitou uma flecha de Coruja. Esta tinha o dobro do tamanho de uma flecha normal, confeccionada a partir de uma madeira negra e resiste. A ponta e a pena também eram negras, uma corda estava enrolada ao redor do corpo da flecha. A corda ia até o chão, onde se amontoava perto dos pés de Luna.

Colocando a flecha no arco, Luna focou no alvo. Parte da tripulação do outro navio tinha se reunido no deque. Eles estavam tendo uma discussão que parecia séria. O problema parecia ser a figura de capuz que estava sendo arrastada para o outro lado do navio. Será que iam jogar a pessoa no mar? Não importava. A distração era vantagem para Luna.

Se concentrando, Luna focou seu sexto sentido, estendendo sua aura através das águas em direção à embarcação inimiga. Ela sentiu a presença e localização de cada pessoa no outro navio, assim como a presença de sua tripulação atrás dela.

“Trinta pessoas ao todo,” Luna disse. “Tem sete no convés, o resto está dormindo nos deques inferiores. Não tem ninguém acordado nessas áreas, parece que a comoção no convés distraiu todo mundo. Vamos assegurar o deque sem acordar o pessoal de baixo. Macaco, Lobo, vocês fazem o de sempre, entendido?”

“Sim senhora,” os dois responderam.

Luna acenou. Ela ergueu o arco, mirou no lado do navio inimigo, puxou a corda, respirou fundo e ativou sua vord.

A varinha ainda estava na cintura de Luna. Ao comando mental dela, essência fluiu do cristal para o corpo de Luna. Era como uma nuvem de nevoa gelada sendo absorvida por seu corpo. Luna comandou a essência braço acima, até que a energia emanou de sua pele, fundindo-se com o ar e dando Luna controle sobre o mesmo.

Ao comando dela, ar fluiu em direção à ponta da flecha. Luna fez o ar girar, formando um turbilhão ao redor da ponta da flecham que ameaçava arrancar o arco inteiro de suas mãos. Luna soltou a flecha.

O projétil voou pelo centro do turbilhão e saiu girando em direção ao alvo. Luna usou o vento para empurrar a flecha por trás até ela sair de seu alcance. O projétil cortou o ar, voando quase em linha reta, rápido o bastante que até Luna teve dificuldade de ver. A flecha bateu no navio inimigo com um som abafado. A corda amarrada na flecha agora se estendia entre as duas embarcações.

Sucesso.

A tripulação de Luna entrou em ação sem precisar ser comandada. Leão pegou a corda e subiu no mastro do Lua Crescente em um piscar de olhos, amarrando a corda perto do topo. Macaco e Lobo saltaram na corda e a usaram de tirolesa, escorregando até a embarcação inimiga. Cada um deles tinha uma varinha na cintura, as suas com cristais amarelos na ponta.

Na metade da corda os dois ativaram suas vords, tornando-se invisíveis. O único rastro que sobrou deles foi uma leve vibração no ar, algo que poucos conseguem notar na noite.

Assim que eles sumiram, Luna começou a contar os segundos. Quando chegou em sessenta, ela ergueu um punho. Foi o sinal para os outros quatro saltarem na corda, deixando apenas Luna, Coruja e Leão para trás. A segunda leva não ficou invisível. A luta começou assim que eles chegaram ao navio inimigo.

Luna estava pronta para oferecer suporte com seu arco, mas não foi preciso. Os inimigos mal tiveram tempo de gritar antes de Lobo — um dos que foi invisível — emergir de uma cabine segurando o capitão deles com uma faca no pescoço. Um instante depois Buffalo sinalizou — eles tinham se rendido.

Luna sorriu. Ela preferia ter tido um pouco mais de ação, mas um sucesso limpo também era satisfatório. Ela largou o arco e saltou na corda, deixando Coruja e Leão para vigiar o Lua Crescente. Ela escorregou até o fim da corda e escalou o lado do navio, chegando ao deque onde sua tripulação esperava.

Dez membros da tripulação inimiga estavam no deque, todos de costas para a parede ao lado da cabine do capitão. Segundo o sexto sentido de Luna, o resto do navio nem tinha acordado ainda.

Os únicos fora da linha eram o capitão e uma mulher nobre, que estavam de refém nas mãos de Lobo e Macaco. O homem encapuzado que Luna tinha visto ser arrastado mais cedo estava agora de joelhos no meio do convés, olhando para o chão.

“Tudo sobre controle, capitã,” Macaco disse.

“E quanto a aquele ali?” Luna perguntou, acenando em direção ao encapuzado.

O homem de capuz tentou se levantar. Luna teve um mau pressentimento. “Segurem,” ela mandou.

Dois de seus homens se adiantaram e pegaram o cara pelos braços e o forçaram a ficar de joelhos. O homem começou a sussurrar rápido, falando sozinho. Luna virou para o capitão inimigo.

“Qual o problema dele?” Luna perguntou.

O capitão, um homem meio careca com óculos redondos, deu a Luna um olhar zangado e não respondeu.

“Leão, corte a garganta da mulher,” Luna disse.

“Sim senhora,” Leão respondeu.

Ele não ia fazer, claro — a primeira regra era não matar. Porém a ameaça foi o bastante para o capitão abrir a boca.

“Espera!” Ele disse.

Luna ergueu uma mão. Leão parou.

O capitão suspirou. “Nós não sabemos. O sujeito só começou a falar sozinho do nada. A gente acha que ele pode ser… você sabe.”

“Em nome de Aster…” Macaco sussurrou. Então ele elevou a voz. “Um mago? Vocês tem um maldito mago aqui?!”

O resto da tripulação de Luna congelou.

“Nós não sabemos se é um mago!” O capitão protestou. “Ele simplesmente enlouqueceu do nada.”

“O que é exatamente o que acontece com magos,” Macaco disse.

“Ele demonstrou algum poder?” Luna perguntou. “Algo que uma vord não faria?”

“Nada!” O capitão falou. “Zero, poder nenhum.”

Os outros no deque tinham seus olhos grudados na figura de capuz, que ainda estava preso de joelhos. Os reféns pareciam com mais medo do encapuzado que da tripulação invasora.

Luna riu. “Relaxem, paspalhos. Se não tem poderes não é mago, simples.” Ela olhou para sua tripulação congelada. “Vão vasculhar o navio! Tragam o resto da tripulação pra cá, nada de pilhar até estarem todos rendidos.”

Os homens saltaram para obedecer, desparecendo navio adentro.

“Senhora, com todo respeito,” Macaco disse. “Eu ouvi que há casos em que o mago fica louco antes de se transformar. É melhor jogar ele no mar, prevenir pra não ter que remediar.”

Luna balançou a cabeça. “Você sempre foi muito supersticioso.” Ela andou até onde o louco estava de joelhos. “Olha pra ele, não tem como ser um—”

Luna puxou o capuz do louco e congelou. Ele olhou para os céus, ainda sussurrando. O homem brilhava com luz laranja; era como se alguém tivesse acendido velas atrás de sua pele. O deque caiu em silencio e Luna olhou para o capitão inimigo.

“Ele não estava assim agora pouco,” o capitão disse, pálido.

O brilho do louco ficou mais intenso. Isso não podia ser bom. E os homens dela estavam dentro do navio sem saber o que estava acontecendo. Luna encheu os pulmões de ar. “Recuar!” Ela berrou.

O louco explodiu. A bola de fogo consumiu Luna, o deque, o navio inteiro, transformando a noite em dia. Luna não teve tempo de correr, ela mal teve tempo de sentir dor.

Houve apenas o boom, o brilho, depois a escuridão.

2

Luna saltou da cama, puxando ar pela boca aberta. Ar! Doce ar! Será que tinha sido tudo um pesadelo? Se tiver sido, então a noite passada tinha sido muito louca, porque ela não estava em uma cama. Luna estava… em lugar nenhum.

Ela esfregou os olhos para ver se estavam com defeito. Mas não, eles estavam funcionando bem. Luna estava em lugar nenhum. Ela estava sentada na escuridão, rodeada de sombras que torciam sobre si mesmas de forma preguiçosa, como fumaça numa sala fechada. E embora ela não visse diferença, o “chão” embaixo dela era firme. Ela se levantou, tentando não pensar no fato que ela estava de pé em nada.

Espíritos sagrados, o que foi que eu bebi noite passada? Luna se perguntou. Eu acordei em lugares malucos antes, mas isso…

Bom, pelo menos ela não estava pelada. Então a noite não tinha sido tão louca assim. Luna estava usando uma jaqueta grossa de couro negro. A mesma que ela usava para… navegar. Ah é, a explosão. Ela tinha esquecido.

Então era isso. Ela estava morta.

Luna respirou fundo, acalmando sua mente para controlar a onda de emoções, usando o exercício de respiração que seus mestres a tinham ensinado. Morta, sim. Morta, finalmente! Ela sorriu. Com o jeito que ela vivia, era uma surpresa ter durado tanto. Só era uma pena a tripulação dela ter sofrido o mesmo destino.

Descansem em paz, Luna pensou, abaixando a cabeça por seus amigos.

Entretanto, estar morta não respondia a pergunta óbvia. Onde diabos ela estava? Essa escuridão sem fim não tinha chamas o bastante para ser o inferno, nem festas o bastante para ser os Campos Eternos. Então o que era aquele lugar?

Algo brilhou na escuridão perto de Luna. Uma luz tão intensa que ela não conseguia olhar. Luna cerrou os olhos e saltou para trás e assumiu posição de combate, pronta para se defender.

A luz despareceu de vez e deixou para trás um homem velho, de pé na escuridão. O corpo do homem lembrava um barril: barriga redonda, braços grossos. Sua pele era negra, cabelos cinzentos. Ele usava um sobretudo branco de aparência engraçada. Era um sobretudo, mas não parecia feito para proteger contra o frio — Luna se perguntou para que servia.

“Por essa eu não esperava,” o homem disse, examinando as próprias roupas. Então ele viu Luna. “Ah, você deve ser a dois-um-quatro. Meu nome é Christopher, prazer em conhecê-la.”

Ele estendeu uma mão para Luna, sorrindo. O homem tinha o tipo de aura calma que você vê num bom médico ou um ancião gentil, do tipo que você confia imediatamente. Será que a deusa Aiana era um homem no fim das contas? Luna não ficaria surpresa se todos os xamãs estivessem errados. Ela apertou mãos com o homem, ele tinha um aperto fraco.

“Eu sou Luna. Você quem é o mandachuva aqui?”

“Ah não, não, eu sou só um prisioneiro. Eu vou ser o seu parceiro hoje. Alguém deve aparecer logo para explicar a situação. E não precisa se preocupar, eu não estou preso por nada violento.”

“Então estamos numa prisão?” Luna perguntou.

“Estamos numa realidade virtual,” disse uma terceira voz. Essa voz era feminina e vibrava com um leve eco. “Dentro de um laboratório de testes.”

A voz vinha de cima. Luna olhou na direção e encontrou uma esfera de luz azulada, flutuando em direção ao chão. Christopher se curvou.

“Bom dia, luminissíma,” ele disse, com reverencia.

“A vontade, doutor,” a esfera disse. Ela parou de descer, flutuando na altura dos olhos de Luna. A criatura de luz era do tamanho de um punho fechado. Olhar para ela não incomodava os olhos.

“Então é você a rainha da cocada preta,” Luna disse.

“Sim, eu sou a entidade encarregada desse experimento,” a esfera disse, usando o tom de uma bibliotecária entediada. “Não, eu não sou Aster, uma Caída, ou seja lá o que for que vocês bárbaros medievais do Universo Seis chamam de deus. Vamos adiantar isso aqui. Eu tenho um teste para você, dois-um-quatro.”

Medievais? Luna nunca tinha ouvido a palavra, mas para garantir… “Medievais é a sua mãe. Meu nome é Luna. Luna Spiritus.”

A esfera suspirou. Como luz conseguia soprar ar?

“Christopher, quantos PhDs você tem?” a esfera perguntou.

“Três, luminissíma,” Christopher respondeu.

“O que eu estou fazendo? Você nem sabe o que é um PhD, não é, dois-um-quatro? Permita-me simplificar para você. Esse imbecil aqui é um gênio. E nem cem dele, trabalhando por mil anos, conseguiriam chegar perto de calcular o quanto eu não dou a mínima para você, seu nome, ou essa maldita conversa. Eu fui clara?”

“Como neve,” Luna disse. Então ela deu um soco na esfera. O braço dela passou pela massa de luz sem efeito.

“Sério?” A esfera perguntou.

Luna encolheu os ombros. “Não custava tentar.” Ela passou a mão pela luz mais algumas vezes, mas não sentiu nada — era como balançar a mão no vento.

“Preste atenção, por que eu só vou explicar uma vez,” a esfera disse. “Nós temos uma série de testes para você. Se você seguir nossas instruções e superar os testes, nós vamos mandar você de volta para o circo que você chama de realidade para que possa viver mais alguns anos miseráveis em um universo onde papel higiênico nem foi inventado ainda.”

“Na verdade—” Luna começou. Eles tinham papel higiênico sim.

“Se você falhar,” a esfera interrompeu. “Nós vamos devolver sua alma ao local de onde a tiramos para que possa seguir o seu curso natural. E não, nós não sabemos para onde as almas vão depois daqui. Deu pra entender tudo?”

“Pergunta. Se só minha alma está aqui, como eu ainda tenho roupas?”

“Sério?” A esfera perguntou. “Você está de pé num mundo digital ouvindo sobre um esquema de coleta de almas transuniversal, e a sua preocupação é suas malditas roupas? Você preferia estar pelada? É mais conveniente pra você?”

As roupas de Luna evaporaram num instante. Christopher olhou para o chão imediatamente, como se ver o corpo de Luna fosse queimar seus olhos. Ela estranhou, franziu o cenho. O que, o grande gênio nunca tinha visto uma mulher nua na vida? Coisa estranha.

“Tá bom, tá bom, eu entendi a mensagem,” Luna disse. “Mas e quanto minha tripulação? Eles também estão por aqui? Estão vivos?”

“Não. Todos morreram e nós só coletamos você. Mas se você vencer há uma chance da morte deles nunca precisar acontecer.”

Luna acenou, satisfeita. Excelente. Ela não estava preocupada em estar morta, mas seus homens não mereciam aquele destino. Bom, pelo menos não a maioria deles. Ainda assim, parecia bom demais para ser verdade.

“Eu não confio em você,” Luna disse, sendo sincera. “Você é sequer humana, criatura?”

“Eu já fui,” a esfera disse. “Se ainda sou é questão de debate. Você está dentro ou fora, dois-um-quatro? Resolva. Tem mais gente na fila pronto pra pegar o seu lugar.”

“Eu estou dentro, claro,” Luna disse. Ela sorriu. “O pior que pode acontecer é eu morrer de novo. E você, grandão. Qual o seu papel nisso tudo?”

Christopher abriu a boca para responder, mas antes que pudesse, ele desapareceu. Luna ficou tonta e caiu de joelhos. Luna ouviu a esfera falando com sua voz entediada, sua voz soando distante.

“Adeus, dois-um-quatro. Boa sorte, vai na sombra, e bla, bla, bla. Chega de protocolo. Iniciando transplante em três, dois, um…”

Luna apagou.

3

Luna acordou em uma cama dessa vez. Uma com lençóis limpos e um travesseiro fofo. O quarto ao redor dela era branco. Branco de doer os olhos, com paredes tão lisas e uniformes que Luna tinha que cerrar os olhos para ver onde a parede acabava e o chão começava. Não havia janelas, luz branca vinha do teto e a única saída era uma porta de metal do outro lado do quarto. A porta estava fechada.

Não parecia ter nada de errado com o corpo de Luna. Ela não se sentia diferente, na verdade ela se sentia ótima. Tudo em ordem, exceto por um pequeno detalhe: ela era um homem agora.

Pelos espíritos, o que diabos…? Luna se perguntou, examinando o seu novo par de mãos enormes. Seus braços eram musculosos, bem definidos e sua pele era negra. Ela estava vestida com um estranho vestido azulado que… Luna virou de lado para ter certeza. É, o vestido deixava a bunda dela de fora. E que bunda gostosa essa.

*Obrigado!* Christopher disse. A voz dele parecia ecoar dentro da cabeça de Luna. *Mas eu não posso levar crédito. O laboratório aprimorou meu corpo para melhor servir uma guerreira.*

“Christopher?” Luna chamou, olhando ao redor. A voz dela agora era grossa e suave. Parecia um bom carpete em versão fonética. “Cadê você?”

Era fácil ver que Christopher estava falando a verdade. A pilha de músculos que Luna agora habitava lembra muito pouco o Christopher que ela tinha visto na escuridão mais cedo. Ela tentou estender sua aura, sentir alguma presença ao seu redor, mas nada aconteceu. Seu sexto sentido havia desaparecido.

*Eu estou aqui dentro com você,* Christopher disse. *Estamos compartilhando meu corpo. Sua alma foi transplantada junto com a minha. Você não precisa falar, aliás. Eu escuto seus pensamentos.*

“Eca, que estranho. Não, eu prefiro falar, obrigada,” Luna disse. Ela levantou da cama.

O chão era gelado embaixo dos pés descalços. O quarto inteiro tinha cheiro de coisas químicas e o ar era muito… morto. Seco. Que raio de lugar era esse? Pelo menos o corpo novo parecia familiar.

Eu me pergunto quais poderes eu ainda tenho, Luna pensou. Ela fez alguns testes, incluindo cerrar o punho e estalar os dedos, mas nada aconteceu. Ela respirou fundo e fechou os olhos, procurando... sim, ainda tinha uma pequena chama dentro dela. Devia ser o bastante para poder usar a Fúria da Lua, mas pelo visto este era o único poder que ela ainda tinha. Ia ter que servir.

Enquanto isso, Christopher disse: *Acredite, não é tão estranho quanto ter outra pessoa controlando seu corpo. Você está estranhamente calma com a situação toda, aliás.*

Luna esticou os braços, saltou do pé direito para o pé esquerdo, deu socos e chutes no ar; tudo sem encontrar problemas com sua destreza. Ela só ia precisar se acostumar a olhar para baixo e encontrar um corpo o dobro do tamanho original dela.

Enquanto se aquecia, Luna falou. “Na minha tribo, a primeira coisa que todo guerreiro aprende a matar é o próprio pânico.” Ela deu mais dois socos no ar, experimentando a força do corpo novo. “Nós aprendemos a lidar com o que vier. Deixe os xamãs e os fracos esquentar com fazer perguntas. Ah! Espera ai, se eu sou um homem agora…” Luna alcançou a própria virilha. Estava tudo lá, pendurado embaixo das roupas dela. “Haha, eu tenho bolas! Que irado!”

*Ai meu Deus…*

Luna tentou coçar o próprio saco, imitando que ela via homens fazer o tempo todo. Mas ela fez com muita força e uma dor ardente acendeu em seus países baixos.

“Espíritos, essas coisas são bem frágeis, não é?” Luna perguntou. Ela se sentiu mal por todas as vezes que ela acertou homens naquele lugar. Bom, um pouco mal. “Me diz, Christopher. Quanto tempo até o teste começar? Eu preciso testar esse parceiro aqui embaixo.”

Luna sentiu Christopher corar. O sentimento de vergonha do rapaz pareceu emanar de dentro do peito de Luna, o que foi uma sensação esquisita.

*Por favor, não,* Christopher disse. *Deixe meus países baixos em paz.*

“Não seja sem graça,” Luna disse. “Eu—” Ela parou, então assumiu posição de combate, de olho na porta. “Tem algo vindo.”

*Como você—*

A porta de metal abriu, deslizando para dentro da parede. Dois homens estavam de pé do outro lado, gêmeos altos e magros usando terno, gravata e óculos escuros. Eles eram pálidos, seus cabelos brancos como a neve. Cada um deles carregava um objeto de metal estranho.

*Arma!* Christopher gritou.

Armas de fogo invadiram a mente de Luna. Num piscar de olhos ela entendeu que aqueles pedaços de metal em forma de L atiravam pequenas flechas mortais tão rápidas que era impossível desviar. A informação queimou toda de uma vez na mente de Luna, causando uma dor de cabeça angustiante. No fundo de sua mente ela viu algo sobre pólvora e explosões, mas era menos claro.

Ao mesmo tempo, medo invadiu o corpo de Luna. Medo vindo não dela, mas de Christopher. A pancada de pânico foi como um balde de água fria.

Os gêmeos ergueram as pistolas em direção à Luna. Ela ignorou o medo como quem ignora um ex irritante. Ao invés, ela abraçou a adrenalina — um companheiro de dança muito melhor. Sentindo a energia fluir por seu corpo, Luna focou seus sentidos, elevando cada um deles ao limite até ela sentir uma chama se acender dentro de seu peito. Naquele momento, o mundo começou a se mover mais devagar aos olhos de Luna.

Era a Fúria da Lua, uma das técnicas de combate mais antigas do arsenal de Luna. Agora era a única que lhe restava.

Ela viu os gêmeos começarem a mover seus dedos lentamente no gatilho, armas apontadas para o peito dela. Flechas muito rápida para desviar? Bom, então era melhor ela sair do caminho antes de atirarem. Luna se abaixou. Um instante depois vieram as explosões, dois tiros em sequencia, os dois acertaram a parede atrás dela.

Luna não ia dar a eles outra chance. Fúria da Lua tinha dois elementos: a habilidade alterava a percepção de Luna, deixando o mundo lento; mas ela também acelerava seu corpo com adrenalina. O resultado é que enquanto outros se moviam de vagar, a velocidade dela permanecia normal.

De sua posição baixa Luna saltou em direção aos inimigos. Suas pernas novas a lançaram mais longe do que ela esperava. Luna bateu de ombro no gêmeo da esquerda, isto o mandou voando em direção à parede.

Ela agarrou o braço do segundo oponente, quebrou ele na junta, e desceu com o calcanhar no joelho, torcendo a perna do gêmeo para fora com um crack!. O primeiro inimigo bateu na parede com o baque. Luna largou o segundo, o deixando cair. Apesar dos ferimentos, a expressão dele não demonstrou nenhuma dor.

Enquanto isso, Christopher estava sussurrando algo de novo e de novo. Orações? O medo dela não a afetava, mas era irritante. A voz dele não vinha em câmera lenta.

A porta aberta levava a uma antessala menor que o quarto, vazia exceto por outra porta fechada. Luna viu que não tinha mais inimigos e respirou fundo, deixando sua fúria retroceder e o tempo voltar ao normal.

Imediatamente, ela teve que limpar o suor escorrendo de sua testa. Respirar ficou difícil. Fúria da Lua era muito desgastante e o corpo de Christopher não estava acostumado. Luna deu a seu novo corpo um momento para relaxar.

*Ai meu Deus, ai meu Deus…* Christopher choramingou. *Como foi que eu vim parar aqui!*

“Christopher, a não ser que você tenha algo útil a dizer, cale a boca.”

O gêmeo no chão tentou alcançar sua arma. O outro que ela jogou na parede estava se levantando. Nenhum dos dois demonstrava nenhuma dor. Luna ergueu uma sobrancelha. Ela tinha batido no primeiro com força o bastante para matar uma pessoa. Era bom ver que ela não tinha quebrado a primeira regra sem querer, mas o cara não devia conseguir se levantar. E o irmão dele estava tentando pegar a arma com o braço quebrado!

*D-desculpa. E-eu não estou acostumado…* Ele respirou fundo. *Luna, eles não estão vivos, não precisa se segurar.*

Dava para sentir que ele estava falando a verdade. Como esse não era o mundo dela, Luna achou melhor não questionar. Ela pisou na garganta da criatura no chão, esmagando ela sob seu pé enorme. Luna sorriu. Essa nova força bruta era divertida de usar.

Ela pegou a arma no chão, apontou em direção ao segundo oponente e atirou. Ela só precisou errar dois tiros para entender que a tal pistola era só um arco mirim de aparência estupida. O terceiro tiro ela acertou no meio da testa do gêmeo. A cabeça dele explodiu numa bagunça de metais e fios.

“Ah que ótimo,” Luna disse. Ela começou a rir. “Criaturas de luz, roubo de almas, mudança de sexo, e agora pessoas de metal. Esse teu mundo é um circo, Christopher! Eu quero passar férias aqui.”

*Você está se divertindo?* Christopher perguntou, em choque.

“Você não?” Luna perguntou, igualmente chocada. Algo agarrou a perna dela. Era o outro gêmeo, ainda se mexendo apesar do braço quebrado e garganta esmagada. “O que são essas malditas coisas?”

*Drones. Você precisa destruir a cabeça para cortar o sinal.*

Luna pisou no peito da criatura, alcançou e arrancou a cabeça com uma mão só, lançando faíscas para todo lado. Ela ergueu a cabeça; fios saiam de onde o pescoço estava e os óculos escuros da criatura caíram, revelando olhos metálicos que brilhavam com luz verde no fundo da íris. A criatura — o drone — abriu e fechou a boca, tentando morder Luna. Fora os olhos, a criatura parecia bem real. A pele era macia e estava até quente.

“Legal,” ela disse. Ela jogou a cabeça para o alto e plantou uma bala na testa, fazendo-a explodir. “Qual o próximo desafio, porcos voadores?”

*Você não tem isso no seu mundo?*

“Não. Nós temos javalis voadores; completamente diferente,” Luna disse.

*Nós temos sorte que eles mandaram drones,* Christopher disse. *O tempo de reação deles é limitado ao do piloto. Se fosse uma inteligência artificial… Deus, até um drone militar com auxilio de mira automática seria quase impossível de desabilitar sem se ferir.*

Ela examinou a arma. O pedaço de metal parecia minúsculo nas mãos enormes. O corpo de Christopher devia ter pelo menos dois metros de altura. Quanto à arma, Luna tinha uma noção que havia um numero limitado de flechas dentro da coisa, e que ela precisava trocar… algo. Recarregar. Mas ela não sabia como fazer isso. Havia buracos em seu conhecimento novo, coisas que sua mente não compreendia. Era perturbador.

*Que droga, ninguém avisou que iriam tentar me matar!* Christopher disse. *Eu esperava testes de coordenação motora, caramba, não isso. E por que você sabe usar uma pistola?*

“Eu ia perguntar a mesma coisa! Pra começar, como eu sei o que é uma pistola? A informação simplesmente invadiu minha mente.”

*Hmm… talvez seja um efeito colateral do transplante.*

“Talvez? Talvez! Eu pensei que você fosse um gênio!”

*Gênio é exagero. E mesmo que eu fosse, eu não sei nada sobre almas. Até os Luminosos sabem pouco e eles não me disseram nada além do necessário. Minhas áreas de especialização são Programação de AI e Design Mecatrônico. Você sabe o que algum desses significa?*

Enquanto Christopher falava, Luna foi pegar a arma do outro drone. Duas pistolas pareciam ser melhores do que uma.

“Não faço ideia,” ela disse, examinando a segunda arma. Perfeitamente idênticas. Eles têm artesões habilidosos nesse universo.

*Huh. Então a transmissão de informação não é automática. Eu devo ter feito algo quando entrei em pânico.*

“Então faça de novo,” Luna disse. “Me mande tudo que eu vou precisar para fazer os testes. Eu não quero nada invadindo minha mente enquanto luto, fica difícil de concentrar.”

*Desculpa, Luna, mas eu não sei como. Não tem um painel de controle aqui, sabe. E mesmo que tivesse, eu não saberia o que mandar, eu não sei quais testes vamos enfrentar.*

“Então temos que trabalhar juntos. Ótimo,” Luna disse, com um suspiro. “Se é assim, eu sou a capitã. E você vai manter a calma de agora em diante, não faça eu te bater.”

*Primeiro, eu sou uma alma dentro de você, me bater é impossivel.*

“Você me subestima.”

*Segundo, eu sugiro que trabalhemos como iguais, porque se for para ter um líder, faz mais sentido escolher a pessoa que entende o universo em que estamos.*

“Ou a gente pode escolher aquele que salvou a nossa pele ao invés de mijar nas calças não-existentes.”

A parede à direita de Luna zumbiu. Uma frase apareceu na parede, escrita em grandes letras garrafais. Luna cerrou os olhos para tentar ler. Ela tinha aprendido as letras para virar capitã, mas leitura não era seu forte.

*A parede diz: “Bom trabalho, dois-um-quatro.”*

“Obrigado,” Luna disse. Finalmente serviu para alguma coisa.

*Eu ouvi isso…*

Outro zumbido. As letras na parede ficaram borradas, depois desaparecerem. Uma nova frase apareceu.

*Tá dizendo para você voltar para o quarto para que o teste possa prosseguir.*

“Ela vai tentar matar a gente de novo,” Luna disse.

*Não necessariamente.*

“Eu tenho certeza. O que acontece se eu me recusar a ir?”

*Como você pode—*

“Instinto!” Luna disse.

Christopher suspirou. *Bem, eu sugiro que não desobedeça. Você não quer dar à luminissíma motivo para descumprir o acordo.*

“Tudo bem, tem razão. Mas deixa só eu…”

*Não!* Christopher disse, corando.

“Eu nem terminei de falar.”

*Não, mas eu sei no que está pensando. Fique longe das minhas bolas.*

“Christopher! Se coloque no meu lugar. Eu nunca mais vou ter uma chance dessas.”

*Eu entendo a curiosidade, mas por favor não. Eles têm olhos em toda parte aqui.*

“Já viu essas roupas, meu filho? Sua bunda tá de fora, eles com certeza já viram sua serpente.”

*Luna!*

“Sério! Pense no potencial, você não quer saber se eles aprimoraram tudo para parecer o de um guerreiro? Hein?”

Christopher ficou com tanta vergonha que nem conseguiu falar. Luna riu alto.

“Tá bom, tá bom! Eu vou deixar quieto, Doutor Tédio. O corpo é seu, afinal. Eu sou só a capitã.”

*Eu não concordei com isso.*

“Você não tem muita escolha.”

Christopher não respondeu, o que Luna tomou como consentimento. Ela respirou fundo e voltou para o quarto. Com sua mente limpa e uma pistola em cada mão, ela estava pronta para lidar com o que viesse.

4

Assim que Luna colocou o pé no quarto, a porta fechou atrás dela. Um painel quadrado no teto deslizou para o lado. Do buraco caiu um cubo negro do tamanho de um melão, suas superfícies polidas refletindo a luz do teto. O cubo pousou no centro do quarto com um som metálico. Ele zumbiu e na sua face superior apareceu o numero 30 em letras vermelhas.

Outro zumbido. O numero virou 29.

*Ah não…* Christopher disse, medo emanando de sua alma.

“O que foi?” Luna perguntou.

Zumbido. 28.

*Eu acho que é uma bomba.*

Luna franziu o cenho. “O que, esse troço pequeninho?” Ela perguntou, andando até a caixa. “É só chutar o cubo e se esconder então.”

Zumbido. 27.

*Se esconder onde? Estamos presos nesse quarto, não tem como saber o quão grande a explosão vai ser. Não, a gente precisa desarmar a bomba. Pegue o cubo, procure por uma anomalia, algum jeito de abrir ele.*

“Hmmm…” Luna disse, olhando para o cubo. Não parecia uma boa ideia. Ela olhou para cima, mas o buraco de onde o cubo tinha vindo já tinha fechado.

26.

*Luna, nós não temos tempo!*

Ela suspirou. “Aff. Tá bom, tá bom. Mas se eu morrer duas vezes explodida no mesmo dia você vai ver uma coisa…”

Ela jogou as armas na cama, pegou o cubo e começou a procurar.

25.

“Drones assassinos, bombas, seu povo tem um jeito estranho de recompensar seus gênios, Christopher,” Luna disse.

*Eu disse, eu sou um criminoso. Se tivermos sucesso, eles vão me perdoar. Ali! Volta, no fundo.*

24.

Havia um painel retangular no fundo do cubo. Era difícil de ver, mas Luna sentiu quando passou a mão.

*Tente aplicar pressão.*

Luna obedeceu. O painel caiu para dentro do cubo, revelando um interior cheio de fios e luzes brilhantes.

“Você não tem pinta de criminoso,” Luna disse. “O que foi que aprontou, sonegou de impostos?”

23.

*Hmm, essa foi fácil. O dispositivo também não parece muito complexo. Será que é só um teste de coordenação?*

22.

“Responda minha pergunta, Christopher.”

*Eu acho melhor não,* Christopher disse, emanando uma subia onda de medo e vergonha.

Ele tinha aprontado, e aprontado algo feio. Luna não tinha duvida. E ela não se sentia segura andando por ai ouvindo conselhos de um homem que estava pagando por crimes desconhecidos.

“Por que não?”

*E-eu…* o estresse dele aumentou.

Era irritante. Luna sentia as emoções dele na própria pele. A pele que também era dele… mas ela estava controlando, então tecnicamente era dela agora… a situação toda dava dor de cabeça. E a hesitação toda de Christopher já estava irritando.

21.

“Fale logo. Eu não me mecho até você dizer.”

Foi demais. O medo de Christopher virou pânico. O rapaz congelou, sua mente acelerando. Então uma onda de emoções invadiu o corpo de Luna, junto com uma enxurrada de informações muito bagunçadas e complexas para compreender. A dor de cabeça fez Luna gritar, era como se seu cérebro estivesse pegando fogo. Ela largou o cubo e caiu de joelhos, agarrando a cabeça com as duas mãos.

“CHRISTOPHER!” Luna gritou.

*Desculpa, desculpa, desculpa! Não sou eu, não é de propósito, eu não sei como parar!*

Luna cerrou os dentes, fazendo força para ignorar a dor. Limpe sua mente! Ela comandou, sabendo que Christopher ia ouvir. Lágrimas começar a escorrer dos olhos dela, lágrimas vindo de Christopher.

*Eu não consigo! Foi tanta coisa, eu fiz tanta coisa. Helena…*

A dor intensificou. Luna tentou controlar sua respiração, mas era difícil quando a luta parecia a de um machado partindo sua cabeça como uma abobora.

Pense em outra coisa, qualquer coisa! Luna gritou em sua mente. Foque num ponto e deixe o resto esvair!

*Tá bom, tá bom. Pera ai. Erm… três, um, quatro, um, cinco, nove, dois, seis, cinco…*

Christopher continuou com sua sequencia de números estranha. Por volta do décimo numero a dor começou a esvair. No vigésimo Luna já consegui abrir os olhos e respirar fundo, seus olhos não estava mais chorando. Ela percebeu que estava no chão. Em algum momento ela tinha se enrolado em posição fetal. Luna sentou. Ela estava ensopada de suor.

*Luna! Você está bem?*

Alguma coisa zumbiu. Luna começou a esfregar os olhos.

“Eu acabei de dar lições de meditação para uma impedir uma alma transplantada em mim de me matar de dentro pra fora. É, eu estou ótima.”

*Desculpe, eu não sabia que ia acontecer. Mas pra ser justo, eu avisei que não queria falar…*

“Eu te odeio,” Luna disse. Ela ouviu outro barulho. “O que diabos fica zumbindo! Eu estou com dor de— oh.”

Luna olhou pro lado. O cubo. Ela tinha esquecido do cubo. O medo vindo de Christopher disse que ele tinha esquecido também. O cubo zumbiu. O numero vermelho mudou de 10 para 9.

*Ainda dá tempo! Rápido, pegue o cubo.*

Luna obedeceu, depois saltou do chão. Ela se sentia mais segura de pé, pronta para correr.

8.

*Ache a abertura. Olhe mais de perto! Eu só consigo ver o que você vê. Hmm… ali, fio verde, puxe ele. Não, o de trás! Isso, agora puxe com cuidado, não precisa fazer força.*

Luna obedeceu. Ela só seguiu as instruções sem hesitar porque ela conseguia sentir, na alma dele, que Christopher sabia o que estava fazendo. Ele ainda estava cheio de medo, mas sabia o que estava fazendo. Luna arrancou o fio, as luzes dentro da caixa apagaram. Ela girou o a caixa — o numero tinha desaparecido.

Christopher suspirou, relaxando. *Conseguimos.*

A caixa acendeu de novo, então zumbiu. O numero pulou de 8 para 3. Christopher entrou em pânico. Luna abraçou a onda de adrenalina, entrando no estado de Fúria da Lua. O mundo tornou-se mais lento ao seu redor.

Enquanto sua mente acelerava, Luna gritou “Vai apanhar!” para Christopher, que estava fazendo suas orações. Aparentemente a Fúria da Lua acelerava a mente dele também.

Zumbido. A caixa pulou do numero 3 direto para numero 1. Luna fez o que queria ter feito desde o principio: chutou a caixa para longe. Ela precisava de um lugar para se esconder!

O grito fez a mente de Christopher se focar. Luna sentiu os pensamentos dele ecoando o dela, ele tinha pensado a mesma coisa.

*A cama!* Christopher disse.

Com a caixa voando lentamente em direção à parede, Luna virou a jogou a cama de lado no chão, formando uma meia parede. Ela pulou por cima da cama, caindo de barriga no outro lado entre lençóis e suas armas caídas.

Três sons vieram em sequencia. Primeiro o baque da caixa acertando a parede, depois o zumbido do numero virando 0 e por fim… boom!

O quarto tremeu. A explosão lançou Luna contra a parede. A cama veio junto, acertando Luna no peito, esmagando ela como recheio de sanduiche. Ela cerrou os dentes. A pressão estalou todas as juntas em seu corpo, o som foi como um soco direto em seus ouvidos. Então a explosão acabou. A cama caiu da parede e Luna desabou no chão com os ouvidos apitando.

Luna começou a rir. Ela estava suando, o coração parecia um tambor em seu peito. Quem diria que morrer deixaria ela se sentir tão viva!

*Luna, fogo!* Christopher avisou.

Uma chama laranja estava se retorcendo no canto da visão de Luna. Um dos lençóis estava pegando fogo. Ela agarrou uma pistola e se arrastou para longe, ainda rindo.

“Estamos vivos!” Ela disse. Sua própria voz soava abafada. “Hahaha, pelos espíritos. Vivos, Christopher! Eu sou demais!”

Christopher foi de incrédulo, para confuso, passou por furiosos, até que finalmente ele começou a rir também.

*Ei, eu ajudei!* Ele disse.

“Você ajudou!” Luna disse. “O que é a parte mais incrível disso tudo.”

A explosão tinha deixado marcas negras no chão e no teto, mas não havia nenhum arranhão na estrutura da sala. Esse material branco das paredes era bem resistente, seja lá o que fosse.

Christopher continuou rindo. *Meu Deus… o que eu estou fazendo com minha vida?*

“Foi fichinha,” Luna disse. Então ela gritou. “Vocês vão ter que fazer pior que isso!”

A porta do quarto se abriu, assim como a porta da antessala no lado de fora. Luna balançou a cabeça, respirando fundo, e se levantou. Ela pegou a outra pistola e prosseguiu, uma arma em cada mão.

“Vamos lá, gênio,” Luna disse, andando porta afora. “Vamos ver qual é a próxima surpresa.”

5

Luna passou pela porta com suas pistolas erguidas, pronta para lutar. A porta de metal fechou atrás dela. O novo cômodo tinha paredes tão brancas quanto as de antes. Havia outra porta fechada nesse cômodo. Vários itens estavam pendurados nas paredes aos dois lados da porta, em fileiras organizadas. Havia algo escrito no topo de cada parede.

*A da esquerda diz “Armas”, a da direita diz “Ferramentas”,* Christopher disse.

Christopher não estava bem entusiasmado. Parece que ele ainda estava processando a sua quase morte e a situação atual. Ela tinha visto pessoas nesse estado em campos de batalha. Luna ia ter um papo com ele logo logo, mas por enquanto era bom deixar o rapaz pros seus pensamentos.

O chão zumbiu. Letras apareceram em frente aos pés de Luna.

*O chão diz: “Bom trabalho, dois-um-quatro. Agora largue suas pistolas. Você vai escolher três ferramentas e uma arma. A porta abrirá quando você tiver obedecido.”*

“Oba, presentes!” Luna disse, largando suas pistolas.

*Você não devia se animar tanto. Aqui nós temos uma coisa chamada videogame. Neles áreas como essa sempre vem antes do pior inimigo.*

“Melhor ainda!” Luna disse. Ela foi direto para a parede com as armas. “Ser pirata é bom e tudo mais, tem suas emoções, mas já faz tempo demais que não tenho uma boa luta. O que você pode me dizer sobre essas armas?”

Havia três itens na parede de armamento. Um era uma espada, os outros dois Luna não reconhecia. A espada parecia feita do mesmo material branco que compunha a parede. Era uma arma longa em forma de cruz, do tipo que um cavaleiro santo usaria.

*Bom, a arma de corte é claramente uma espada solar. As outras duas armas são rifles — basicamente versões melhores das suas pistolas. O rifle preto no meio atira balas normais, enquanto o rifle à direita — o que está coberto de linhas brilhantes — atira balas solares. Ambas as armas solares são poderosas, mas suas baterias não duram. O rifle convencional é, de longe, a opção mais sensata. Eu nunca usei um, mas não deve ser mais difícil de atirar que uma pistola.*

Luna acenou. “Entendi.” Então ela pegou a espada da parede. A arma era tão longa quanto o braço de Luna, mas era leve como uma pluma. O material branco era suave e morno ao toque.

*Luna? O que você está fazendo?*

Ela girou a espada entre os dedos, depois jogou a arma pra cima, pegou de volta, e cortou o ar na sua frente. Sim, a espada não só era leve, mas o balanço de peso dela era perfeito. Até o punho da arma parecia feito para encaixar na mão dela; Luna sentia firmeza na pegada apesar da superfície lisa. Ela tocou a lâmina no dedo e isso abriu um pequeno corte. Era uma espada bem afiada, com certeza, mas nada comparado às maravilhas que ela tinha visto nesse universo até agora.

“Como eu faço esse brinquedo funcionar?” Luna perguntou.

*Luna, esse local está cheio de maquinas assassinas tentando lhe exterminar. Usar uma espada é suicido! Pegue o rifle.*

“Eu sei, eu sei, mas aqui está o meu contra argumento: e se eu precisar limpar os dentes?”

*Oi?*

“É! Aposto que não pensou nisso, não é, gênio? E se a próxima sala for um concurso de comida?” Luna ergueu a espada, segurando pela lâmina com cuidado, e começou a usar a ponta para limpar os dentes da frente. “Viu?”

*Você é louca,* Christopher disse, zangado.

Luna riu, abaixando a espada. “Sim, mas não por isso. A moral da história é que espadas são mais versáteis. Além do mais, meu instinto que me diz que é a melhor escolha.”

Ela correu os olhos pela espada, procurando algum tipo de gatilho que a fizesse funcionar. Não podia ser tão difícil, não é mesmo?

*Eu não vou confiar minha vida aos seus instintos, Luna.* A raiva já estava virando fúria.

“Oooh esquentadinho, pode respirar fundo ai antes que eu me irrite também, tá bom? Não é a sua vida, é a nossa vida. E você não tem escolha, a capitã sou eu. Sem contar que ultima vez que eu ouvi você a gente quase explodiu. O que foi divertido, eu admito, mas não foi nada produtivo.”

*Quase explodiu? Fui eu quem deu a ideia de virar a cama!*

“E eu quis jogar a caixa longe assim que vi a bendita coisa,” Luna disse. “E eu disse pra se acalmar. Se isso fosse meu barco, eu já tinha lhe jogado no mar pra esfriar a cabeça.” Luna chegou a espada mais perto do rosto, cerrando os olhos.

*Que medieval da sua parte. Me avise quando desistir de tentar ligar a espada, eu quero testar algumas coisas com o rifle antes—*

“Ah há!” Luna disse.

O segredo estava no punho. O resto da espada inteiro parecia forjado a partir de um único pedaço daquela substancia branca, mas havia uma divisória sutil entre o punho a guarda da espada. Luna segurou na guarda e girou o punho.

A espada vibrou, um som estranho começou a vir de dentro do punho, como se um vendaval estivesse acontecendo dentro da arma. Um instante depois, o fio da lâmina acendeu com um brilho vermelho, uma luz mais forte que qualquer outra no cômodo.

*Desligue isso, idiota!* Christopher gritou. *Você não tem ideia do quão perigoso isso é!*

“Você tem razão,” Luna disse.

Ela girou a espada em direção ao rifle. A lâmina cortou a parede e a arma com a mesma facilidade que cortava o ar. O corte na parede deixou uma cicatriz negra, enquanto o metal do rifle derreteu ao toque das bordas brilhantes da espada.

Luna abriu um sorriso. “Irado.”

*Luna!*

“O que foi?” Ela perguntou. Luna girou o punho e a espada parou de brilhar. “Agora eu sei o que a espada faz.”

*Essa coisa nem tem um marcador de combustível. Você pode ter desperdiçado seu único ataque.*

“Melhor do que andar por ai com uma arma que eu não sei usar,” Luna disse. Ela balançou a espada mais duas vezes, se habituando à sensação de usar uma arma tão leve. “Pronto, agora me ajude a escolher as ferramentas.”

*Não. Luna, por favor, volte. Até um rifle solar é melhor que uma espada. Isso não tem graça, são nossas vidas que estão em jogo aqui.*

“Eu nunca disse que era uma piada.” Luna parou em frente à parede de ferramentas. “Mas se você não quer ajudar, ótimo. Eu vou pegar três ferramentas aleatórias e seguir em frente. Eu só preciso da espada para vencer mesmo.”

*Você não pode fazer isso!*

“Não?” Luna perguntou.

A parede estava cheia até o teto com objetos de todos os tipos e tamanhos, dúzias deles. Luna puxou uma pá velha da parede.

“Olha só, parece que eu posso, viu, Christopher?” Luna disse, examinando a pá. “Digo, meu braço não caiu nem nada.”

*Você vai andar por ai com essa pá enorme?*

“Relaxe, eu jogo fora assim que a porta abrir,” Luna disse, colocando a pá no chão.

A raiva de Christopher aumentou. Luna correu os olhos pela prateleira até achar outra coisa interessante, uma jarra cheia de um líquido transparente. Ela estendeu a mão.

*Luna, não. Por favor. Luna! PARE AGORA!*

O braço de Luna congelou no ar, ficando dormente. Luna ergueu uma sobrancelha. Ela tentou alcançar a jarra, mas o braço não obedeceu. Ao invés, o braço abaixou sozinho, como se controlado por outra pessoa. Ao mesmo tempo, Luna conseguia sentir que Christopher estava fazendo… alguma coisa. Era uma sensação difícil de descrever. A satisfação que Christopher sentiu, por outro lado, era alta e clara.

“Christopher, largue o meu braço!” Luna comandou.

*Meu braço!* Christopher disse. *E eu vou cooperar quando você começar a me ouvir. Eu não sei no que você está pensando, mas nossa situação é real! Eu posso morrer, você pode morrer, nós não estamos num sonho!*

“Você não quer que eu te escute, você quer que eu lhe obedeça. E o único que não estava levando isso a sério era você. Eu sou a capitã e esse navio não vai ser guiado com base na sua covardia.”

*Eu não me lembro de ter lhe dado uma escolha.*

Christopher fez o seu truque de novo. A perna esquerda de Luna parou de funcionar, ela caiu de joelho no chão. Seu braço esquerdo continuava dormente, parado ao lado de seu corpo. Dessa vez, porém, Luna estava prestando atenção. Ela sentiu algo saltar de Christopher em direção a ela, de uma alma para outra. Era como… agulhas, perfurando ela.

“É assim que você quer? Tá bom. Não diga que eu não avisei.”

Luna fechou os olhos. Com três respirações rápidas, ela limpou sua mente, caindo em um trance meditativo. Nesse estado ela conseguiu ignorar o seu próprio corpo e focar com clareza nas sensações novas, coisas que não estavam ali antes dela morrer. Ela sentiu a própria alma, e outra presença, não muito longe — a alma de Christopher. Ela focou sua mente naquele ponto.

*Luna?* Christopher falou. A voz dele estava muito mais alta agora que ela estava focando. *O que você está fazendo?*

“Christopher, nós estamos presos aqui juntos. Então se você pode me afetar, eu devo ser capaz de fazer o mesmo.”

*Huh. Eu acho que é a coisa mais racional que você disse hoje.*

“Obrigada,” Luna disse. Então ela deu um soco na cara de Christopher.

*Ai!* Christopher disse, sua alma recuando. *Doeu! Como diabos você socou uma alma?!* O tom dele era de puro exaspero.

“Com a mão, idiota,” Luna disse. Então ela deu outro soco, fazendo Christopher xingar. “Agora solta meu braço! E a perna!”

Christopher gritou, lançando sua alma em direção a ela, claramente tentando bater de volta. Luna resistiu, se recusando a recuar perante a investida. No processo, seu trance se tornou ainda mais profundo.

Luna desmaiou.

6

Quando Luna abriu os olhos, ela não tinha mais um corpo. Mais essa agora, ela pensou, olhando ao redor.

Luna flutuava em escuridão absoluta. Sua forma agora era a de uma bola de luz azulada. Dezenas cordas brilhantes saiam da forma dela, desaparecendo na escuridão. A frente dela estava outra esfera, menor e avermelhada. Um fio fino estava saindo dessa outra esfera, uma linha vermelha que se estendia até a forma de Luna. Ela sentia a energia da outra esfera vindo daquele fio, este que perfurava a alma dela como uma agulha.

“Onde nós estamos?” Christopher perguntou, sua voz ecoando. “Luna! O que você fez?!”

A voz vinha da esfera menor. Aquela, Luna decidiu, devia ser a alma de Christopher. Luna deu um soco nele.

Foi um ato de pura curiosidade. Até agora Luna estava batendo nele sem saber como, movendo-se mais por instinto e sorte de principiante que qualquer outra coisa. Mas aqui, no mundo das almas, ela pode ver uma onda de energia luminosa disparar do seu corpo, voando em direção à Christopher. A onda cruzou o ar deixando um rastro brilhante como um cometa e assumiu a forma de um punho fechado no ar. O punho acertou Christopher e dissipou numa nuvem de poeira luminosa, que então foi sugada de volta para a alma de Luna.

Parece essência, Luna pensou, admirada. Será que almas eram feitas da mesma substancia que era usada para carregar as vords e fazer magia no mundo dela?

“Ai!” Christopher disse. “Pra que isso?”

“Curiosidade. E você mereceu! Tire essa agulha de mim.”

“Eu… eu não sei nem como… onde estamos?”

“No mundo das almas.”

“Oi?”

“Mundo das almas, tapado. Seu xamã não lhe ensinou nada?”

“Eu acho difícil que seu conhecimento tribal seja de alguma utilidade aqui, Luna.”

“E eu tenho certeza que não ligo pro que você acha. Corte esse fio.” Luna lançou outro soco, acertou Christopher em cheio.

“Pare com isso, droga! Eu preciso pensar. A gente tem que sair daqui. E eu não sei o que é esse fio vermelho, mas se foi isso que impediu você de se mexer, então eu vou deixar isso ai até você aprender a se comportar.”

Luna riu. “Comportar? Você sabe quem eu sou?”

Christopher ignorou ela. Ele começou a se mover para lá e para cá, flutuando no espaço vazio, o fio vermelho esticou para seguir seus movimentos. Luna experimentou se mover também. Apesar das várias cordas brilhantes saindo da alma dela, ela conseguia se mover sem problemas.

“Tribal ou não, talvez mundo das almas seja um bom nome,” Christopher disse. “Esse lugar, seja o que for, parece ser onde nossas almas coexistem juntas. De alguma forma você nos fez cientes dessa dimensão. Essas cordas devem ser o que conectam você ao meu corpo, é por isso que você controla o corpo enquanto eu sou só uma presença na sua mente. Mas como diabos você nos trouxe aqui?”

“Simples. Eu sou demais,” Luna disse.

“Se você é boa assim, sabe como nos levar de volta ao meu corpo?” Christopher perguntou. “Porque até onde sabemos, você ferrou com o transplante e nós estamos presos aqui até a luminissíma cansar de nos assistir desmaiados e terminarem de matar a gente.”

Luna lançou outro soco. Dessa vez, Christopher desviou. Infelizmente o soco de energia não era nem perto de ser tão rápido quanto Luna gostaria.

“Luna!” Christopher protestou. “Eu estou falando de uma coisa séria aqui.”

“E eu estou preocupada com um motim acontecendo dentro do meu corpo! Quem você pensa que é pra decidir que armas eu vou usar?”

“Que tal a gente discutir isso depois?”

“Depois quando? Quando eu acordar e não puder mais impedir você de assumir controle de partes do meu corpo?”

“Não é seu corpo!”

Luna se concentrou. Ao invés de lançar um soco, ela manifestou um braço feito de energia, saindo de sua alma. Ela usou o novo membro para agarrar o fio que conectava ela à Christopher. Ela puxou o fio com força, tentando arrebentá-lo; mas ela só conseguiu trazer Christopher voando em sua direção. As duas almas bateram de frente, então se repeliram. Christopher foi lançado na direção oposta com um gemido de dor, Luna não sentiu nada.

“Tá bom!” Christopher disse. “Se você quer resolver isso aqui, vamos resolver isso aqui. Dê meu corpo de volta!”

“Eu não daria mesmo que soubesse como.”

“Você me ouviu pedir, sua selvagem?”

Duas agulhas vermelhas saíram voando da alma de Christopher e acertaram Luna, perfurando sua alma. Ela não sentiu dor, mas sentiu sua conexão com Christopher ficar mais forte. A determinação dele era clara através dos fios. As cordas azuladas ao redor de Luna reagiram, vibrando. Ela sentiu sua ligação com o corpo ficar mais fraca.

“Você acha mesmo que consegue lutar melhor do que eu?” Luna perguntou. “Você vai matar nós dois, seu covarde.”

“Talvez na primeira fase, Luna. Mas agora eles estão dando armas, equipamentos. Tecnologia e inteligência ganham muito mais guerras do que treinamento e coragem, mas é claro que você não sabe disso.”

A alma de Christopher disparou mais duas agulhas escarlates. Luna tentou esquivar, mas elas curvaram no ar, fazendo movimentos súbitos como os de um inseto. Mais uma vez ela foi atingida. Agora um total de cinco fios vermelhos conectavam as duas almas. Luna começou a se sentir gelada por dentro, como se alegria fosse uma memória distante. Era assim que Christopher se sentia?

Rosnando de raiva, Luna lançou uma série de socos, mas Christopher esquivou de todos com facilidade. Luna tentou fazer seus socos menores, mais rápidos, mas ela não conseguia. Por que diabos a alma dela tinha que ser tão maior que a de Christopher?

“Eu sinto muito, Luna. Mas—”

Ela não o deixou terminar. Luna se jogou para cima de Christopher, usando sua alma para bater de frente com a dele. De novo, as duas se repeliram, e uma dor cortante ecoou pela alma de Christopher, tão forte que Luna sentiu parte da dor vindo pelos fios escarlate.

“Tire essas coisas de mim!” Luna comandou.

Então ela investiu de novo. Christopher tentou esquivar, mas não tinha como. A alma de Luna era muito maior e mais rápida que os socos. Ela acertou Christopher em cheio, isto o mandou voando para trás até ele bater em algo sólido. A superfície refletia a luz de Christopher como um espelho — aparentemente, o mundo das almas tinha uma parede.


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